A LUTA PELA DIGNIDADE CONTIUNUA: Comunidade quilombola Matão, na Paraíba, conquista parte de seu território

 


Por Kalyandra Vaz

As 40 famílias da comunidade quilombola Matão, nos municípios de Mogeiro e Gurinhém, na região do Agreste paraibano, conquistaram, na manhã desta quinta-feira (3), o primeiro dos três imóveis que compõem o território de 214 hectares identificado e delimitado pela Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na Paraíba como área remanescente de quilombo.

O auto de imissão da autarquia na posse do imóvel Fazenda Santo Antônio, com cerca de 118 hectares, foi assinado na presença de representantes de Matão e de outras comunidades quilombolas, do superintendente do Incra/PB, Kleyber Nóbrega, do chefe da Divisão de Governança Fundiária da autarquia no estado, Antônio de Lisboa Dias, e do oficial de Justiça Federal Elder Saldanha Pontes Filho.

Um grupo de crianças da comunidade acompanhou a solenidade com tambores e instrumentos musicais improvisados.

As famílias de Matão vivem principalmente da agricultura, destacando-se o cultivo de feijão, milho e fava.


Nova fase da comunidade

Para a presidente da Associação do Matão, Josefa de Paiva Santos Silva, mais conhecida como Zefinha, a comunidade quilombola agora começa a vislumbrar uma nova fase de muita alegria, esperança e trabalho. “Essa conquista é fruto de muitas lutas”, afirmou.  

Zefinha destacou a importância das mulheres na resistência e na conquista da terra. “Foram as mulheres que deram início a toda a luta e, ao longo da caminhada, envolveram os jovens e convenceram os maridos a participarem, dando apoio e acompanhando na mobilização”, contou a liderança. “Meu coração está muito alegre por essa conquista maravilhosa”.

De acordo com o vice-presidente da Associação, José Maximino da Silva, agora as famílias se sentem seguras e empoderadas por estarem de posse de uma área onde poderão desenvolver sua agricultura, o plantio de culturas de subsistência, como feijão, fava, milho, macaxeira e batata-doce, e ainda para desenvolverem suas criações de animais, a plantação de árvores frutíferas e a horticultura.

“A comunidade está em festa e segura, pois, a partir do próximo ano, já poderemos colocar nossos roçados e produzir nossos próprios alimentos. A conquista, mesma que parcial, do nosso território já é uma garantia do retorno de muitos quilombolas que precisaram sair da comunidade para garantir a própria sobrevivência, o sustento de suas famílias. A partir de agora, a comunidade pode acessar diversas políticas públicas, o que antes era impossível por conta da falta da posse da terra”, disse José Maximino.

A expectativa da comunidade, segundo ele, é que, mesmo neste momento difícil de enfrentamento da pandemia do Covid-19, “a imissão de posse, ainda que apenas parcial, agilize o quanto antes a titulação das áreas que faltam”, afirmou.


Identificação da comunidade

O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da área de aproximadamente 214 hectares do território de Matão, a aproximadamente 80 km da capital João Pessoa, foi publicado em novembro de 2009. O trabalho foi elaborado pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB), que, em março de 2008, firmou contrato com o Incra/PB para agilizar o processo de regularização de Matão e de outras duas comunidades quilombolas do Agreste paraibano, que somam 205 famílias: Grilo, no município de Riachão do Bacamarte, a 98 km da capital paraibana; e Pedra D’Água, no município de Ingá, a 95 km de João Pessoa. 

O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) é composto pelo Relatório Antropológico, que aponta os aspectos históricos e socioculturais da comunidade, bem como a relação deles com o território a ser delimitado, e ainda pelo Laudo Agronômico e Ambiental, pelo levantamento dominial do território, o cadastro das famílias pertencentes à comunidade e pelo Mapa e Memorial Descritivo da área.

Após a conclusão do Relatório Antropológico, o Incra fez o cadastramento das famílias, o levantamento dos títulos incidentes no território, a delimitação do seu perímetro e os estudos ambientais para só então publicar o resumo do RTID no Diário Oficial do Estado.


Processo de regularização quilombola

As comunidades quilombolas são grupos étnicos predominantemente constituídos pela população negra rural ou urbana, que se autodefinem a partir das relações com a terra, o parentesco, o território, a ancestralidade, as tradições e práticas culturais próprias. Estima-se que em todo o país existam mais de três mil comunidades quilombolas.

Para terem seus territórios regularizados, as comunidades quilombolas devem encaminhar uma declaração na qual se identificam como comunidade remanescente de quilombo à Fundação Cultural Palmares, que expedirá uma Certidão de Auto-reconhecimento em nome da mesma. Devem ainda encaminhar à Superintendência Regional do Incra uma solicitação formal de abertura dos procedimentos administrativos visando à regularização.

A regularização do território tem início com um estudo da área para a elaboração do Relatório Técnico que identifica e delimita o território da comunidade. Uma vez publicado o seu resumo nos diários oficiais da união e do estado, notificados os interessados, atendidos os prazos legais para a contestação por parte dos mesmos e para o julgamento destas, o Incra publica uma portaria de reconhecimento que declara os limites do território quilombola. Depois da portaria de reconhecimento, é feita a instrução para o decreto de desapropriação dos imóveis inseridos no território delimitado, que é assinado pelo presidente da República. O Incra então realiza a vistoria na área para que seja aberto o processo de desapropriação na justiça. 

É feita a regularização fundiária, com a retirada de ocupantes não quilombolas através de desapropriação e/ou pagamento das benfeitorias e a demarcação do território.

A fase final do procedimento é a imissão do Incra na posse do imóvel e a concessão de um título coletivo e inalienável de propriedade à comunidade em nome de sua associação dos moradores com registro no cartório de imóveis.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cerâmica Elizabeth coloca PARAÍBA em destaque recebendo principal certificação do setor em fábrica de João Pessoa

Sesc e Prefeitura de João Pessoa inauguram novas instalações do Viveiro Florestal

TERRA DE GÊNIOS: Paraíba obtém a melhor nota do país sobre ensino remoto, segundo a FGV